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EDITORIAL DA SEMANA

PATERNIDADE EM TEMPOS DE
“FARMAR AURA”

Modismo passageiro ou sintoma de uma geração sem referências?

É fácil olhar para os jovens de hoje, observar suas gírias, seus vídeos, suas roupas e seus comportamentos e concluir, com uma mistura de espanto e irritação, que estamos diante de uma geração perdida. A expressão “farmar aura”, tão popular nas redes sociais, parece oferecer argumentos para essa conclusão. Originada no universo dos jogos eletrônicos, ela significa acumular simbolicamente carisma, respeito e admiração por meio de atitudes consideradas marcantes.

Na prática, “farmar aura” pode ser apenas uma brincadeira. O problema começa quando deixa de ser uma expressão passageira e se transforma em maneira de viver. O jovem passa a escolher comportamentos não porque sejam corretos, úteis ou coerentes, mas porque podem produzir curtidas, comentários e aprovação. A vida deixa de ser experiência e se torna espetáculo. O caráter perde espaço para o personagem.

Diante disso, alguns adultos perguntam se estamos vivendo uma espécie de “síndrome da burrice” da nova geração. A pergunta é provocativa, mas talvez esteja mal direcionada. Antes de acusarmos os jovens de superficialidade, precisamos ter coragem para olhar ao redor e perguntar: quem lhes ensinou que aparecer é mais importante do que ser? Quem transformou sucesso em ostentação? Quem normalizou a exposição da intimidade? Quem entregou um celular conectado ao mundo a uma criança e depois se ausentou da responsabilidade de acompanhá-la?

Os jovens não inventaram sozinhos a sociedade das aparências. Eles apenas nasceram dentro dela.

Foram os adultos que passaram a fotografar todos os momentos antes mesmo de vivê-los. Foram os adultos que transformaram aniversários, viagens, relacionamentos, conquistas e até tragédias pessoais em conteúdo. Foram os adultos que começaram a medir relevância pelo número de seguidores. Portanto, criticar a juventude sem reconhecer a nossa responsabilidade é como reclamar da colheita depois de negligenciar o plantio.

A chamada “farmagem de aura” talvez seja apenas o espelho mais recente de uma sociedade que há muito tempo confunde visibilidade com importância, fama com autoridade, riqueza com competência e opinião com conhecimento.

Nesse cenário, a paternidade assume um papel fundamental. Ser pai não significa somente gerar um filho, registrar seu nome, garantir alimento ou pagar mensalidades. Paternidade é presença. É disponibilidade emocional, orientação, exemplo, limite e responsabilidade. Um pai verdadeiramente presente ajuda o filho a compreender que o seu valor não depende da aprovação de desconhecidos.

O Centro sobre o Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard explica que as interações atentas e recíprocas entre crianças e adultos responsáveis contribuem diretamente para a formação da arquitetura cerebral. Essas trocas fortalecem capacidades emocionais, cognitivas e sociais essenciais para o desenvolvimento. A presença dos responsáveis, portanto, não é apenas uma demonstração de carinho. É parte da estrutura sobre a qual a personalidade será construída.

Entretanto, precisamos reconhecer uma verdade desconfortável: muitos pais estão fisicamente próximos e emocionalmente ausentes. Permanecem na mesma casa, mas não participam verdadeiramente da vida dos filhos. Não conhecem seus medos, não sabem o que eles assistem, não percebem suas inseguranças e raramente conversam sem que haja uma cobrança envolvida.

É mais fácil oferecer um aparelho eletrônico do que oferecer tempo. É mais cômodo permitir tudo do que enfrentar o desgaste de estabelecer limites. É mais simples responsabilizar a escola, a internet, os amigos ou o governo do que admitir que a educação familiar foi sendo terceirizada.

A ausência de autoridade responsável abre espaço para outras autoridades. Quando o pai não orienta, o influenciador orienta. Quando a família não oferece referências, o algoritmo oferece. Quando não existe diálogo dentro de casa, o adolescente procura pertencimento em comunidades virtuais que podem recompensar a agressividade, a imprudência, a ostentação e a humilhação do outro.

Existe algo fácil de explicar, as redes sempre se utilizaram de recompensas, novidades e estímulos sociais para manter a atenção dos usuários. Para um adolescente, cuja capacidade de autocontrole ainda está em desenvolvimento, esse mecanismo pode intensificar a necessidade de aprovação e dificultar o afastamento das plataformas.

Mas não basta culpar a tecnologia. O celular não entrou sozinho dentro das casas. Ele foi comprado, entregue e, muitas vezes, utilizado como babá digital. A sociedade precisa abandonar a ingenuidade de acreditar que uma criança, apenas por dominar rapidamente um aplicativo, possui maturidade para compreender seus riscos.

Habilidade tecnológica não é sinônimo de sabedoria.

Um adolescente pode saber editar vídeos, criar perfis e navegar por diversas plataformas, mas ainda não possuir estrutura emocional para lidar com rejeição, comparação, exposição, chantagem, humilhação ou fracasso. Pode conhecer todos os recursos de um aplicativo e, ao mesmo tempo, não saber diferenciar admiração verdadeira de aprovação momentânea.

Especialistas pelo mundo que estudam as redes sociais e saúde mental juvenil reconhecem que as plataformas podem trazer benefícios, mas destaca preocupações relacionadas à ansiedade, à comparação social, à imagem corporal e à formação da identidade. Os efeitos variam conforme o tempo de exposição, o conteúdo consumido, o estágio de desenvolvimento e as vulnerabilidades individuais.

Também seria injusto colocar toda a responsabilidade sobre os pais. Muitas famílias enfrentam jornadas exaustivas de trabalho, dificuldades financeiras e falta de apoio. As escolas recebem tarefas que antes eram compartilhadas com a família. Professores precisam ensinar conteúdos, administrar conflitos, corrigir comportamentos e oferecer o acolhimento emocional que muitas crianças não encontram em casa. Ao mesmo tempo, as plataformas digitais lucram com a permanência dos usuários e aperfeiçoam mecanismos capazes de capturar sua atenção.

Existe, portanto, uma responsabilidade coletiva.

As empresas de tecnologia precisam assumir compromissos mais sérios com a proteção de crianças e adolescentes. As escolas precisam trabalhar educação digital, pensamento crítico e responsabilidade. O poder público deve promover políticas de proteção e orientação. As famílias precisam reconstruir espaços de convivência. E os adultos, individualmente, precisam rever o exemplo que oferecem.

Não podemos exigir equilíbrio digital dos jovens enquanto interrompemos conversas para olhar notificações. Não podemos condenar a busca por “aura” enquanto exibimos uma felicidade artificial nas redes. Não podemos ensinar humildade ostentando aquilo que possuímos. Não podemos reclamar que os filhos não conversam enquanto nunca temos tempo ou paciência para ouvi-los.

O puxão de orelha, portanto, não deve ser dirigido somente à nova geração. Ele deve alcançar toda a sociedade.

Precisamos reaprender a estar presentes. Uma refeição sem celular, uma conversa sem pressa, uma correção feita com respeito e uma atividade compartilhada podem parecer gestos pequenos, mas ajudam a construir vínculos. Paternidade não exige perfeição. Exige compromisso. O pai pode errar, pedir desculpas, aprender e recomeçar. O que não pode é abandonar sua função e depois responsabilizar apenas o mundo pelo resultado.

Também é necessário recuperar o valor da frustração. Muitos adultos tentam impedir que os filhos sofram qualquer desconforto, como se amar fosse remover todos os obstáculos. No entanto, quem nunca escuta “não” cresce despreparado para uma sociedade que inevitavelmente estabelecerá limites. Quem recebe aplausos por tudo pode tornar-se dependente de reconhecimento. Quem nunca enfrenta consequências dificilmente desenvolverá responsabilidade.

A verdadeira formação acontece quando afeto e limite caminham juntos.

“Farmar aura” provavelmente será substituído por outra expressão. As gírias passam, mas a necessidade humana de pertencimento permanece. Por isso, o problema não está propriamente nas palavras da juventude, mas no vazio que pode existir por trás delas. Quando um jovem precisa representar permanentemente um personagem para sentir que possui valor, alguma coisa importante está faltando.

Talvez não estejamos diante de uma geração burra. Talvez estejamos diante de uma geração confusa, hiperestimulada, pressionada e carente de referências coerentes. E talvez a verdadeira insensatez esteja em adultos que criticam os sintomas, mas se recusam a reconhecer sua participação nas causas.

A pergunta que devemos fazer não é apenas “que geração irá nos suceder?”, mas “que geração estamos ajudando a formar?”.

A verdadeira aura não nasce de uma pose ensaiada, de um vídeo viral ou de um comportamento calculado. Ela nasce da integridade. Está na pessoa que cumpre sua palavra, respeita os outros, reconhece seus erros, estuda, trabalha, serve e permanece coerente mesmo quando ninguém está olhando.

Se desejamos jovens mais conscientes, precisamos ser adultos mais presentes. Se queremos filhos menos dependentes de aprovação, precisamos parar de viver para impressionar. Se esperamos uma geração responsável, devemos reassumir nossa responsabilidade.

Os jovens serão, em grande parte, aquilo que nossa presença, nosso exemplo e também nossas omissões ajudarem a construir. Antes de apontarmos o dedo para eles, talvez seja o momento de desligarmos as telas, sentarmos à mesa e perguntarmos, com honestidade, onde foi que nós, como sociedade, deixamos de prestar atenção.

Weber Negreiros

Por: Weber Negreiros - CEO WN Treinamento, Consultoria e Planejamento
CEO da Revista Falando de Negócios
  

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