



EDITORIAL DA SEMANA
A CRIANÇA QUE NUNCA DEVE MORRER
A importância do exemplo infantil no nosso crescimento
Existe uma criança dentro de cada um de nós que, em algum momento da vida, foi silenciada pelas responsabilidades, pelas cobranças, pelas decepções e pelo medo de parecer frágil diante do mundo. Essa criança, porém, não desaparece por completo. Ela permanece guardada em algum lugar da alma, esperando uma oportunidade para nos lembrar que viver não precisa ser apenas resistir, cumprir tarefas, pagar contas, vencer batalhas e carregar pesos. Viver também é sentir, imaginar, brincar, acreditar, recomeçar e se encantar com aquilo que, aos olhos endurecidos do adulto, parece simples demais.
Quando somos crianças, carregamos uma força que muitas vezes só compreendemos depois que a perdemos: a capacidade de olhar para a vida com curiosidade. A criança pergunta, observa, se surpreende, transforma uma caixa de papelão em castelo, uma poça d’água em oceano, um quintal em universo. Ela não precisa de grandes explicações para se maravilhar. O mundo, para ela, ainda não é um lugar totalmente definido. Tudo pode ser descoberta. Tudo pode ser começo. Tudo pode ser possibilidade. Tudo pode ser visto como oportunidade.
Com o passar dos anos, vamos sendo ensinados a conter essa espontaneidade. Aprendemos que é preciso ter postura, controle, prudência, seriedade. Amadurecer é necessário, sem dúvida. Crescer exige responsabilidade. A vida adulta nos chama para compromissos que não podem ser ignorados. Mas existe uma diferença enorme entre amadurecer e endurecer. Amadurecer é ganhar consciência sem perder a sensibilidade. Endurecer é permitir que o peso da vida nos roube a leveza, o brilho nos olhos e a capacidade de sonhar.
Uma das grandes perdas do crescimento é a pureza do olhar. A criança costuma enxergar as pessoas antes dos rótulos, os gestos antes dos interesses, a presença antes das aparências. Ela não nasce calculando vantagens, medindo status ou julgando tudo a partir de conveniências. Ela sente. Ela acolhe. Ela se entrega. É claro que a vida ensina cuidados importantes, e nem toda ingenuidade deve permanecer. Mas há uma pureza que não é falta de inteligência; é grandeza de alma. É a capacidade de não permitir que as feridas nos transformem em pessoas frias, desconfiadas de tudo e incapazes de acreditar no bem.
Também perdemos, muitas vezes, a coragem de tentar. A criança cai e levanta. Erra a palavra e continua falando. Desenha fora da linha e ainda assim mostra o desenho com orgulho. Ela não começa a vida exigindo perfeição de si mesma. Ela experimenta. Ela aprende fazendo. O adulto, ao contrário, muitas vezes deixa de tentar por medo do julgamento. O medo do ridículo vai ocupando o espaço da liberdade. E, como lembra a reflexão atribuída a Lina Marano, enquanto mantivermos a criança dentro de nós, haverá magia; quando deixarmos o medo do ridículo nos guiar, teremos envelhecido.
Quantos sonhos foram abandonados não por impossibilidade real, mas porque alguém teve medo de parecer sonhador demais? Quantas palavras ficaram presas porque o adulto calculou demais as consequências? Quantas alegrias foram reprimidas porque pareciam pequenas, bobas ou inadequadas? A criança interior não nos pede irresponsabilidade. Ela nos pede permissão para viver com mais verdade. Ela nos lembra que a vida perde beleza quando tudo precisa ser aprovado pelos outros antes de ser sentido por nós.
Outra característica infantil que deveríamos preservar é a capacidade de perdoar com mais facilidade. Crianças brigam, choram, reclamam, mas muitas vezes voltam a brincar pouco tempo depois. O adulto, por sua vez, costuma transformar mágoas em monumentos. Guarda frases, coleciona ressentimentos, revive ofensas, alimenta distâncias. Evidentemente, há dores profundas que exigem tempo, cuidado e proteção. Mas também há feridas que poderiam cicatrizar se não fossem continuamente alimentadas pelo orgulho. A criança nos ensina que nem todo conflito precisa virar sentença eterna.
A criança também possui uma relação mais honesta com a alegria. Ela ri alto. Celebra pequenas conquistas. Fica feliz com uma visita, uma brincadeira, um presente simples, um colo, uma história. O adulto vai se convencendo de que só poderá ser feliz quando conquistar algo grandioso: uma promoção, uma casa, uma conta bancária maior, o reconhecimento de todos. E assim, muitas vezes, passa pela vida adiando a felicidade. A criança interior nos recorda que a alegria não está apenas nos grandes acontecimentos, mas também nos instantes que quase passam despercebidos.
Manter viva essa criança não significa negar a vida adulta. Significa humanizá-la. Significa permitir que a maturidade venha acompanhada de ternura. Significa assumir responsabilidades sem perder a capacidade de se emocionar. Significa trabalhar, lutar, planejar e construir, mas sem deixar morrer a imaginação, a esperança e a simplicidade. A criança interior é, muitas vezes, quem salva o adulto cansado, rígido e ansioso. Ela aparece quando nos permitimos rir de nós mesmos, quando olhamos o céu sem pressa, quando abraçamos alguém com sinceridade, quando dançamos sem plateia, quando acreditamos novamente depois de uma queda.
Crescer é inevitável. O tempo passa, o corpo muda, as responsabilidades aumentam. Mas manter a alma leve é uma escolha. Não uma escolha fácil, porque o mundo constantemente nos empurra para a pressa, para a dureza e para a comparação. Ainda assim, é uma escolha possível. Podemos decidir não deixar que a vida nos roube tudo aquilo que um dia nos fez inteiros. Podemos proteger dentro de nós esse lugar onde ainda existe encanto, criatividade, bondade e fé.
A criança que nunca deve morrer não é aquela que foge dos deveres, mas aquela que impede o adulto de se transformar apenas em máquina de obrigações. É ela que nos dá asas quando o mundo insiste em nos prender ao chão. É ela que nos faz sonhar quando a realidade parece dura demais. É ela que nos lembra que a beleza da vida não está somente em chegar, vencer ou acumular, mas também em caminhar com brilho nos olhos.
Por isso, nunca devemos abandonar completamente a infância que nos habita. Ela é memória, mas também é direção. Ela nos mostra quem fomos antes das máscaras, antes das defesas, antes dos medos. Ela nos reconecta com uma parte mais verdadeira de nós mesmos. Que possamos amadurecer sem perder a doçura. Que possamos crescer sem matar a esperança. Que possamos envelhecer sem permitir que o coração fique velho demais para se encantar.
Porque, no fim das contas, a criança que vive dentro de nós talvez seja a parte mais corajosa da nossa existência. É ela que continua acreditando quando o adulto pensa em desistir. É ela que insiste em enxergar beleza onde muitos só veem peso. É ela que nos ensina que a vida, apesar de suas dores, ainda pode ser bela, leve e cheia de possibilidades.

Por: Weber Negreiros - CEO WN Treinamento, Consultoria e Planejamento
CEO da Revista Falando de Negócios
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