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EDITORIAL DA SEMANA

ESTRATÉGIA E PASSIONALIDADE

Quando a pressa arruína os planos

Há uma linha tênue entre agir com rapidez e agir com precipitação. Em tempos marcados pela urgência permanente, pela ansiedade coletiva e pela necessidade constante de respostas imediatas, muitas decisões deixam de ser estratégicas para se tornarem apenas reações impulsivas. A pressa, que deveria ser instrumento em momentos específicos, transforma-se em estilo de vida e, quando isso acontece, a estratégia perde espaço para a passionalidade. Não é por acaso que o velho ditado popular, frequentemente reforçado por Rui Barbosa, ecoa como um alerta atemporal: “A pressa é a inimiga da perfeição.”

A pressa cria uma falsa sensação de eficiência. Quem se apressa acredita estar à frente dos outros, como se velocidade fosse sinônimo de inteligência estratégica. No entanto, o que parece avanço pode ser apenas movimento sem direção. Há decisões que exigem pausa, reflexão e análise profunda de cenários. Quando essas etapas são ignoradas, surgem escolhas mal fundamentadas, sustentadas mais pela emoção do momento do que por dados concretos. A própria reflexão clássica lembra que “a pressa traduz-se em decisões precipitadas, pouco ponderadas; trabalhos desenrascados, em lugar de afincados; e resultados provisórios, porque têm sempre que ser corrigidos, ao invés de definitivos.” Esse ciclo de refazer, corrigir e remediar consome mais tempo do que aquele que se tentou economizar.

A precipitação costuma caminhar ao lado da falta de análise de riscos. Decidir sem avaliar consequências não é coragem, é imprudência. No campo profissional, isso se traduz em projetos lançados sem estrutura, alianças firmadas sem confiança real e estratégias baseadas mais na intuição imediata do que em diagnósticos consistentes. No campo pessoal, a pressa pode destruir relações, reputações e trajetórias que levaram anos para serem construídas. Quem vive em estado de urgência permanente perde a capacidade de perceber nuances, e as nuances são justamente o território onde a estratégia se constrói.

Há também um componente emocional poderoso nesse processo: a soberba que nasce da sensação de esperteza. Muitos acreditam que agir pelas costas, em alta velocidade seja sinal de superioridade intelectual ou domínio do jogo. Essa visão ignora uma verdade essencial: a estratégia exige humildade para reconhecer limites e ouvir diferentes perspectivas. A soberba cria cegueira seletiva; ela faz com que riscos sejam subestimados e críticas sejam descartadas. O resultado é um plano frágil, sustentado por uma confiança exagerada que não resiste ao primeiro obstáculo real.

Nesse cenário, surge o conflito entre estratégia e passionalidade. Peter Drucker já advertia que “a cultura devora a estratégia no café da manhã”, lembrando que comportamentos, emoções e valores coletivos frequentemente têm mais impacto do que qualquer planejamento técnico. Quando a passionalidade domina; seja pelo medo, pela raiva ou pelo excesso de entusiasmo; a estratégia perde consistência. Decisões tomadas no calor do momento podem até gerar resultados rápidos, mas raramente produzem sustentabilidade. A emoção tem seu lugar; ela move pessoas, inspira equipes e cria engajamento. O problema surge quando substitui a análise racional.

Napoleon Hill, ao refletir sobre disciplina emocional, lembra que “mesmo que você queira vencer, mas pensa que não vai conseguir, a vitória não sorrirá pra você. Se você fizer as coisas pela metade, você será um fracassado.” Essa frase revela que estratégia não é frieza absoluta, mas equilíbrio entre intenção e controle emocional. A passionalidade sem direção gera impulsividade; a estratégia sem emoção gera paralisia. O ponto de equilíbrio está em agir com consciência, não com reatividade.

Maquiavel, em sua visão realista sobre poder, afirma que “é melhor ser temido do que amado, se não se pode ser ambos.” Essa frase costuma ser interpretada como frieza estratégica, mas também carrega um alerta: decisões tomadas apenas para agradar emoções imediatas, sejam elas próprias ou alheias, podem enfraquecer a autoridade e a coerência de longo prazo. Liderar exige escolhas difíceis, muitas vezes contrárias ao impulso emocional do momento. A estratégia verdadeira não busca aprovação instantânea; ela busca consistência histórica.

Outro aspecto relevante é a relação entre pressa e comportamento cotidiano. Quem vive apressado tende a agir de forma negativa: buzinar, discutir, reagir com agressividade. A pressa transforma pequenas frustrações em grandes conflitos. Para fugir desse ciclo, a própria reflexão popular aponta caminhos simples e profundos: organização, planejamento e disciplina. Esses três pilares funcionam como antídotos contra a ansiedade estratégica. Quando existe clareza de propósito e cronograma definido, a urgência deixa de ser um estado emocional e passa a ser apenas uma ferramenta pontual.

A sabedoria da calma não significa lentidão improdutiva. Há uma diferença clara entre demorar e se perder. Como diz o pensamento contemporâneo: “Não tenha pressa, mas tenha rumo. Demorar é diferente de se perder.” Quem está realmente adiantado não precisa correr; possui visão, preparo e clareza de prioridades. A pressa nasce muitas vezes da falta de planejamento prévio, de agendas desorganizadas ou de decisões tomadas sem reflexão antecipada. O planejamento estratégico, como lembra Drucker, não trata das decisões futuras em si, mas das implicações futuras das decisões presentes. Cada escolha feita hoje constrói o cenário de amanhã.

Nesse contexto, trocar a pressa por planejamento torna-se um gesto revolucionário em um mundo que valoriza respostas instantâneas. Planejar não é prever tudo, mas criar estruturas capazes de absorver mudanças sem perder direção. Ver desafios e contratempos como oportunidades de crescimento exige maturidade estratégica. Em vez de reagir impulsivamente aos obstáculos, o estrategista analisa padrões, revisa hipóteses e ajusta rotas com serenidade.

A grande ironia é que a pressa raramente economiza tempo. Ela cria atalhos que se transformam em desvios longos e dolorosos. Projetos iniciados sem análise profunda acabam exigindo revisões constantes; relações construídas com base em emoções impulsivas acabam demandando reparos difíceis; decisões tomadas sob soberba frequentemente geram crises que poderiam ter sido evitadas com uma simples pausa reflexiva. A verdadeira eficiência está na clareza de propósito e na capacidade de antecipar cenários.

Peter Drucker também afirma que “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.” Criar o futuro não significa agir impulsivamente; significa construir passo a passo, com consciência e direção. A estratégia madura reconhece que cada movimento precisa estar alinhado a um objetivo maior. Quando a passionalidade assume o controle, o planejamento se fragmenta e a visão se perde em decisões isoladas.

No fim, a reflexão sobre estratégia e passionalidade revela uma escolha constante entre reagir e construir. A pressa pode oferecer a ilusão de protagonismo, mas é a calma planejada que sustenta resultados duradouros. Quem aprende a desacelerar o pensamento antes de acelerar a ação descobre que a verdadeira inteligência estratégica não está em fazer mais rápido, mas em fazer melhor. Afinal, quem está realmente preparado não corre atrás do tempo; caminha ao lado dele, criando caminhos onde outros apenas improvisam.

Estratégia não é ausência de emoção, é emoção disciplinada pela consciência. E talvez a maior vitória não esteja em chegar primeiro, mas em chegar certo, com planos que resistem ao desgaste das circunstâncias e com decisões que não precisam ser refeitas pela pressa que, um dia, prometeu facilitar tudo e acabou por arruinar o essencial.

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Por: Weber Negreiros - CEO WN Treinamento, Consultoria e Planejamento
CEO da Revista Falando de Negócios
  

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