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O RISCO DA INVERSÃO DE VALORES - Quando o permissivo se sobrepõe aos valores

8 de set.
5 min de leitura

Vivemos uma época marcada por uma perigosa confusão entre liberdade e permissividade. Em nome do direito de escolha, da conveniência pessoal e de uma suposta modernidade, comportamentos antes reconhecidos como inadequados passaram a ser relativizados, tolerados ou até celebrados. O problema não está na evolução dos costumes nem na revisão de conceitos ultrapassados. Toda sociedade precisa amadurecer, corrigir injustiças e ampliar direitos. O verdadeiro perigo surge quando essa transformação deixa de ser orientada pela responsabilidade, pelo respeito e pelo bem coletivo, permitindo que interesses individuais se sobreponham aos valores indispensáveis à convivência humana.


Nesse cenário, o certo parece ter deixado de ser certo e o errado já não é percebido como errado. Tudo passou a depender de quem pratica o ato, de quem será beneficiado, da posição ocupada e da narrativa construída para justificar determinada conduta. Aquilo que condenamos nos outros muitas vezes aceitamos quando nos favorece. O erro do adversário é imperdoável, mas o erro do aliado é explicado, minimizado ou escondido. A mentira do outro é falta de caráter; a nossa é apenas uma estratégia. A corrupção alheia é crime; a praticada por alguém próximo torna-se um “deslize”. Essa seletividade moral é uma das faces mais evidentes da inversão de valores.


Quando a sociedade perde referências claras, abre espaço para a normalização do desrespeito. Pequenas concessões vão criando brechas cada vez maiores no comportamento humano. Primeiro, tolera-se uma mentira aparentemente inofensiva. Depois, aceita-se a vantagem indevida, o favorecimento, a omissão, o abuso de autoridade e a apropriação daquilo que pertence ao coletivo. Aos poucos, aquilo que deveria causar indignação passa a ser visto como parte natural da vida. O escândalo de ontem transforma-se na rotina de hoje.


É nesse ambiente que a máxima “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” ganha força. Essa frase representa muito mais do que uma simples incoerência. Ela revela a tentativa de exigir dos outros uma conduta que a própria pessoa não está disposta a assumir. É a moral sem exemplo, o discurso sem prática e a autoridade sem legitimidade.


Mas é possível ensinar valores que não praticamos? Podemos exigir honestidade enquanto buscamos vantagens indevidas? Podemos falar de respeito quando humilhamos quem consideramos inferior? Podemos cobrar responsabilidade dos jovens quando os adultos transformam o descontrole, a agressividade e a mentira em métodos de sobrevivência?


A resposta é clara: palavras orientam, mas exemplos formam. Ninguém possui autoridade moral apenas porque ocupa um cargo, tem poder econômico, veste uma farda, exerce uma função pública, lidera uma família ou controla uma organização. A verdadeira autoridade nasce da coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. Quem recomenda um caminho e segue outro não educa: confunde. Não inspira: decepciona. Não fortalece valores: contribui para destruí-los.


Crianças, jovens, colaboradores e cidadãos observam mais as atitudes do que os discursos. Quando percebem que o comportamento correto é exigido apenas daqueles que não têm poder, aprendem uma lição devastadora: a de que as regras não existem para todos, mas somente para os mais frágeis. Descobrem que, em determinados ambientes, possuir influência é mais importante do que ter razão; conhecer as pessoas certas vale mais do que cumprir as normas; parecer correto oferece mais vantagens do que realmente agir corretamente.


Por trás do poder, da autoridade e do chamado “jeitinho” podem se esconder comportamentos profundamente maléficos à sociedade. O poder, quando exercido sem limites éticos, deixa de ser instrumento de transformação e torna-se mecanismo de dominação. A autoridade, quando desvinculada da responsabilidade, converte-se em arrogância e abuso. E o “jeitinho”, frequentemente apresentado como criatividade ou habilidade para solucionar problemas, pode representar a tentativa de burlar regras, furar filas, conquistar privilégios e transformar direitos coletivos em benefícios particulares.


É preciso compreender que o “jeitinho” quase nunca é inofensivo. Toda vantagem indevida concedida a alguém significa, em alguma medida, uma oportunidade retirada de outra pessoa. Quem fura uma fila atrasa quem chegou primeiro. Quem consegue um cargo por influência ocupa o lugar de alguém que poderia ter sido escolhido por competência. Quem utiliza o poder para escapar das consequências transfere para a sociedade o custo da própria irresponsabilidade. O favorecimento de poucos produz a injustiça suportada por muitos.


Quando essa lógica se espalha, as instituições enfraquecem, a confiança desaparece e o sentimento de impunidade cresce. As pessoas deixam de acreditar nas leis porque percebem que elas não são aplicadas igualmente. Passam a desacreditar das autoridades porque enxergam uma distância cada vez maior entre o discurso público e a prática privada. Nesse ambiente, a ética é tratada como ingenuidade, a honestidade como fraqueza e a esperteza como inteligência. O cidadão correto começa a se sentir um tolo por respeitar regras que outros quebram sem qualquer consequência.


A permissividade também destrói a noção de responsabilidade. Em vez de reconhecer o erro, pedir desculpas e reparar o dano, muitas pessoas procuram justificativas, culpados ou narrativas capazes de transformá-las em vítimas. Qualquer correção é interpretada como perseguição. Qualquer limite é chamado de intolerância. Qualquer consequência é vista como injustiça. Assim, o indivíduo deseja liberdade para agir, mas rejeita a responsabilidade pelos resultados de suas escolhas.


Uma sociedade saudável, entretanto, não pode ser construída apenas sobre direitos. Ela também depende de deveres, limites e consequências. Liberdade não é fazer tudo o que se deseja; é poder escolher com consciência, respeitando a dignidade das outras pessoas e assumindo os efeitos das próprias decisões. Tolerância não significa concordar com tudo. Respeitar diferenças não obriga ninguém a abandonar o discernimento entre aquilo que constrói e aquilo que destrói.


Recuperar os valores não significa defender uma sociedade intolerante, presa ao passado ou incapaz de compreender as mudanças do mundo. Significa reafirmar princípios que não deveriam depender de ideologia, posição social ou conveniência: honestidade, justiça, respeito, responsabilidade, solidariedade, empatia e compromisso com a verdade. Esses valores precisam ser aplicados tanto aos adversários quanto aos amigos, tanto aos desconhecidos quanto aos familiares, tanto aos cidadãos comuns quanto às pessoas investidas de poder.


O enfrentamento da inversão de valores começa nas escolhas cotidianas. Começa quando recusamos uma vantagem injusta, mesmo sabendo que poderíamos obtê-la. Quando reconhecemos um erro, ainda que isso nos cause desconforto. Quando ensinamos pelo exemplo, cumprimos a palavra empenhada e tratamos com respeito aqueles que nada podem nos oferecer. Começa, principalmente, quando abandonamos a perigosa máxima “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” e passamos a declarar, por meio das atitudes: “Observe o que eu faço, porque procuro viver aquilo que defendo”.


O mundo não precisa apenas de pessoas capazes de apontar os erros dos outros. Precisa de seres humanos dispostos a corrigir as próprias contradições. Não precisa de autoridades que imponham valores, mas de lideranças que os representem. Não precisa de discursos perfeitos pronunciados por pessoas incoerentes, mas de exemplos verdadeiros, ainda que construídos por indivíduos imperfeitos.


Quando o permissivo se sobrepõe aos valores, o dano não se limita a uma geração ou a um grupo. Ele compromete o futuro de toda a sociedade. Se desejamos um mundo mais justo, precisamos devolver às palavras “certo” e “errado” o seu sentido essencial. O certo não pode depender da conveniência, e o errado não pode deixar de ser errado apenas porque foi praticado por alguém poderoso. Sem essa consciência, poderemos até parecer modernos e livres, mas estaremos apenas caminhando, de maneira silenciosa, para uma sociedade moralmente perdida e incapaz de reconhecer os próprios limites.

 

Por: Weber Negreiros WN Treinamento, Consultoria e Planejamento Redes Sociais: @Weber.Negreiros - @falandodenegociosbr Site: falandodenegociosbr.com.br

 
 
 

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